Para a sua 7.ª edição, o Docknema seleccionou três ciclos de cinema, destacando uma trilogia da realizadora holandesa Ike Bertels (Ciclo Ike Bertels), que apresenta neste festival a ante-estreia mundial do filme Guerrilla Grannies – How to live in this World (Vovós da Guerrilha – Como viver neste mundo), um conjunto de 14 filmes relacionados com temáticas ambientais (Ciclo Clima, Cultura e Mudança), e ainda quatro produções que exploram a realidade histórica e social do emblemático Grande Hotel da Beira (Ciclo Grande Hotel).

Ciclo Ike Bertels

Em 1983, Ike Bertels realizou em Moçambique o documentário Treatment for Traitors(Os Comprometidos), onde explora um encontro de Samora Machel,  primeiro Presidente da República de Moçambique, com membros do antigo regime colonial português. Um ano depois, filma Women of the War (Mulheres da Guerra), no qual relata a história de Mónica, Maria e Amélia, três mulheres moçambicanas que participaram na Luta Armada de Libertação Nacional. Uma década mais tarde, Bertels renova atenções no país, rodando o filme Guerrilla Pension (Pensão da Guerrilha), actualizando a situação de vida das protagonistas de Womem of the War. Recentemente, a reconhecida realizadora regressou a Moçambique para entrevistar novamente Mónica, Maria e Amélia, dando forma ao documentário Guerrilla Grannies – How to live in this World(Vovós da Guerrilha – Como viver neste mundo). Pelo seu interesse e relação com Moçambique, presta-se nesta 7.ª edição ininterrupta do Dockanema uma merecida homenagem à realizadora holandesa, dedicando-lhe um ciclo exclusivo.

Women of the War | Mulheres da Guerra

Ike Bertels, Holanda, 1984, 50’, VO Português e Línguas locais de Moçambique / legendas Português

Um retratodocumental detrêsmulheres moçambicanasque lutaramdez anos paralibertar o seu paísdoscolonizadores portugueses. Após a independência, em1975,Mónicafoi escolhida paraser membrodo Comité Centraldo Governoda Frelimo.Maria, mãe de cinco filhos, mudou-se paraMaputojuntamente comseu marido, para estudar.Améliatornou-secostureiradeuniformes do exércitona provínciade Niassa.As históriasdas suas vidas acabam por se entrelaçar, mostrando a importância políticaepessoaldasua luta pela independência.

Guerrilla Pension | Pensão de Guerrilha

Ike Bertels, Holanda, 1994, 51’, VO Português, línguas locais de Moçambique / legendas Português

 Neste documentário a realizadora Ike Bertels acompanha a história de três guerrilheiras moçambicanas, Mónica, Maria e Amélia, num momento degrandes mudanças. Naantiga República Popularde Moçambique, realizam-se as primeiras eleições democráticas. Agora, amigose inimigos têm de coopera rnumsistema multipartidário. Mónicavê o fimda sua época aproximar-se; a sua pensão de coronelé tudo que lhe resta. Améliatem que cultivar um novo pedaço de terra para sobreviver. Enquanto isso,Maria tornou-se uma mulher do mundo.

Guerrilla Grannies – How to live in this world | Vovós da Guerilha – Como viver neste mundo

Ike Bertels, Holanda, 2012, 80’, VO Português, Yao, Nyanja / legendas Português

Durante 10 anos, “três meninas da guerrilha”arriscaram as suas vidaspela liberdade e auto determinação, depois de 500 anos de colonialismo português. Sensibilizadapelas imagens de Mónica, Amélia e Maria que anteriormente já tinham participado em outras duas produções da realizadora sobre a lutade libertação de MoçambiqueIke Bertels filma-as novamente, e mais uma vez questiona-as sobre como os seus ideais de revolução moldaram a nova sociedade moçambicana. Hoje, as vovós lutam comas novas gerações, descobrindo como é viver num mundo globalizado.

Ciclo Clima, Cultura e Mudança

Ciclo composto por 14 filmes, (13 deles seleccionados pelo Goethe Institut, Alemanha) entre curtas e longas-metragens, que destacam a dimensão social das mudanças climáticas: o ser humano como a causa, a vítima, mas também como o responsável por encontrar as soluções para esses problemas. Este conjunto de filmes apresenta um panorama de conecções existentes entre as causas das mudanças climáticas e as soluções possíveis, passando do indivíduo à sociedade, do contexto local ao global, numa larga variedade de caminhos.

The Age of Stupid | A Idade da Estupidez (Goeth Institut)

Franny Armstrong, Reino Unido, 2009, 92’, VO Inglês / legendas Português

Olhar generoso sobre o desenvolvimento da Humanidade perante o fundo de catástrofe global.Com uma habilidade dramatúrgica excepcional, que combina uma narrativa ficcional com elementos documentais, este filme traça o caminho para o desastre ecológicoa partir da perspectivado ano 2050, com a ajuda de flashbacks. Acima de tudo, coloca-se a questão: Porque não podemos evitar o nosso fatal destino enquanto ainda temos a oportunidade defazê-lo? Este documentário não só aponta os contornos objetivos da mudança climática, como também revela as contradições internas e as barreiras culturais que fazem com que esta acção sejatão difícil.

Über Wasser | Acima da Água (Goeth Institut) Udo Maurer, Áustria/Luxemburgo, 2007, 82’, VO Alemão / legendas Português

Em três capítulos sobre três diferentes partes do planeta Terra, este documentário relata o significado existencial da água para a Humanidade. Desta forma, um facto aparentemente banal e óbvio torna-se uma narrativa empolgante sobre a luta diária pela sobrevivência. Apesar da água; por causa da água; sem água, com água. Este filme fala-nos sobre o alagamento e inundaçãoda região do delta do Brahmaputrano Bangladesh; fala sobre oporto de pesca, uma vez próspero, da cidade portuária de Aralsk sobre o Mar de Aral, que agora está perdido nas estepes secas; e fala sobre a guerra diária em África, de todos contra todos por um par de bidões de água limpa em Kibera, a maior favela de Nairobi.

Menschen – Träume – Taten | Pessoas – Sonhos – Acções (Goeth Institut)Andreas Stiglmayr, Alemanha, 2007, 90’, VO Alemão / legendas Português


Enquanto procurava porum modelode comunidade compatível com o futuro, o cineasta AndiStiglmayrdebruçou-se sobreomodelo de assentamento da comunidade Sieben Linden(Sete Tílias), fundada em 1997 e localizado noAltmark, a cerca de 150 km a oeste deBerlim. Cerca de 120 pessoasreuniram-seali,formandodiversos bairros,e estão em busca de um modelo de relação e integraçãode diferentes modosda vida incluindo as áreas do trabalho,lazer,educação e cultura. Mas, nas questões da comunicação,educação dos filhos, poder, e, particularmente, na relaçãoentre homens e mulheres, torna-se claro que os problemasda sociedade em geralsão intensamenterefletidos nestemicrocosmos.

Même un Oiseau a besoin de son Nid | Até um Pássaro precisa de um Ninho

Christine Chansou & Vincent Trintignant-Corneau, França, 2012, 70’, VO Khmer / legendas Inglês

Filme documentário sobre os despejos forçados no Camboja, associados às concessões de terras por parte do governo a empresas poderosas para a sua utilização para fins comerciais. Alguns destes terrenos pertencem ao povo. Aqueles que se atrevem aproteger a sua terra, colocam em risco as suas vidas, perante ameaças, intimidações e um sistema de justiça corrupto. Mas, um grupo de mulheres destemidas, liderado pela carismática VannyTep, continua aprotestar e a resistir.

Ciclo Grande Hotel

O emblemático edifício do Grande Hotel da Beira revisto em quatro diferentes perspectivas. Destaca-se neste ciclo a estreia internacional da longa-metragem “Amanhecer a Andar”, da autoria da realizadora portuguesa Sílvia Firmino.

Amanhecer a Andar

Sílvia Firmino, Portugal, 2012, 97’, VO Português

Noite cerrada e um velho homem guarda uma escola. Amanhece, o homem abre portas e varre chão arenoso quando se ouvem vozes de crianças ao longe cantando o hino de Moçambique. Pela mão deste homem, Augusto, chegamos a um espaço amplo, misterioso, que se revelará fragmentado no encontro com as personagens principais do filme.

Silvia Firminotem uma licenciatura emLiteratura Modernapela Universidade Nova de Lisboa, e uma pós-graduação em Cinema Documentário pela Universidade Lusófonade Lisboa e mestrado em Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informaçãodo ISCTE. Tem trabalhado como docente, ao mesmo tempo que tem dirigido diversos documentáriose vídeo-instalações apresentadas em festivais internacionais.

Grande Hotel

Lotte Stoops, Bélgica, 2011, 70’, VO Português / legendas Português

No Grande Hotel da Beira, aquele que em tempos foi um dos maiores e mais luxuosos hotéis do mundo, vivem hoje mais de 2.500 pessoas sem água nem electricidade. Esses habitantes, não só tomaram posse do edifício, como manipularam os seus próprios sonhos. Este filme leva-nos numa viagem através do presente e do passado de uma cidade, onde repousam os restos da sua história colonial.

Depois de estudar História da Arte e Ciências Teatrais, Lotte Stoops criouvárias obraspara teatro. Começou a experimentar o filme por curiosidade nassuas intervençõese performances no espaço público. Viajou muito e trabalhou com crianças em situação de crise no âmbito do projecto 24/24. Hoje em dia, ela reúne a sua experiência artística e de intervenção social através da realização de filmes documentários.

Hóspedes da Noite

Licínio Azevedo, Moçambique, 2007, 53’, VO Português

O Grande Hotel, na cidade da Beira, era o maior de Moçambique, na época colonial: 350 quartos, luxuosas suítes, piscina olímpica… Actualmente, o prédio, em ruínas, sem electricidade e sem água canalizada, é habitado por 3500 pessoas. Algumas vivem ali há vinte anos. Além dos quartos, também servem de moradia os saguões, os corredores, as áreas de serviço do hotel e a cave, onde é sempre noite.

Licínio Azevedo é cineasta e escritor. Trabalhou no Instituto Nacional de Cinema, onde acompanhou as experiências dos cineastas Ruy Guerra e Jean-Luc Godard. É um dos fundadores da Ébano Multimédia, empresa moçambicana de produção de cinema.

Grande Hotel

Anabela Saint-Maurice, Portugal, 2007, 52’, VO Português

Em Moçambique foi inaugurado em 1955 um hotel de luxo que aspirava a ser o maior de África. O filme “Grande Hotel “ evoca a história trágica do espantoso edifício, emblema do passado e do presente da cidade da Beira. Tendo como fio condutor o hotel, o documentário acaba por ser um retrato da cidade da Beira, das diferentes vivências e culturas que nela coabitam.

Anabela Saint-Maurice

Anabea Saint-Maurice é portuguesa nascida em Angola em 1959. Há vários anos que se dedica à realização de documentários na RTP – televisão pública portuguesa.