A 6º edição do Dockanema começou na sexta-feira, dia 9, com um tapete vermelho à porta do Centro Cultural da Universidade Eduardo Mondlane. No seu discurso de abertura, Pedro Pimenta agradeceu a vinda de todos os que não quiseram perder o pontapé de partida de mais um festival de cinema documentário, em Maputo, acrescentando que, este ano, o festival tem uma variedade de temas e de olhares espalhados por 80 filmes das mais diversas origens.

“Quero também realçar a homenagem que, nesta edição, fazemos ao cineasta Ruy Guerra, e que não teria sido possível sem o precioso contributo de José Luís Cabaço”, acrescentou Pedro Pimenta.

O director do festival passou depois à apresentação do filme de abertura: A Nostalgia da Luz, de Patricio Gúzman, recordando uma frase do realizador: “Um país sem fotografias é como uma família sem fotografias”.

A Nostalgia da Luz passa-se, no Chile, mais precisamente no deserto de Atacama, onde a transparência do céu é de tal ordem que permite a astrónomos do mundo inteiro observar as estrelas e procurar extraterrestres. Paralelamente, o deserto de Atacama também é um lugar onde a secura do solo conserva intactos os restos humanos: das múmias, dos exploradores, dos mineiros e as ossadas dos presos políticos da ditadura. Ao lado dos astrónomos, mulheres mexem nas pedras, procurando os seus parentes desaparecidos.

Recorde-se que, entre 1973 et 1979, Patricio Gúzman realizou o seu primeiro filme, A Batalha do Chile, uma trilogia sobre o governo de Salvador Allende e sua queda. Foi o início de um caminho de notoriedade. A revista americana Cineaste considerou-o «um dos dez melhores filmes políticos do mundo».

Após o golpe de Estado do Pinochet, Gúzman ficou encarcerado durante duas semanas no estádio nacional chileno, e ameaçado de morte.

Já em liberdade, instalou-se depois em Cuba, e mais tarde em Espanha e França, onde continua a sua carreira de realizador de documentários.

Entre 2006 e 2010, realizou a Nostalgia de la Luz e cinco curta-metragens sobre a astronomia e a memória histórica. Patricio Gúzman é também fundador e presidente do Festival Internacional do Documentario de Santiago do Chile.

Homenagem a Ruy Guerra

 No sábado, a noite foi dedicada a Ruy Guerra com a projecção do filme Os Fuzis. Antes do filme houve, no entanto, tempo para um discurso emotivo do cineasta que, depois de uma ausência de 25 anos, veio a Moçambique de propósito a convite do Dockanema e do seu grande amigo, José Luís Cabaço, reitor da Universidade Técnica de Moçambique. “Voltar a Moçambique, depois de tantos anos de distância, requer uma vontade muito grande de enfrentar estas memórias felizes e dolorosas ao mesmo tempo”, disse, emocionando-se ao acrescentar que “sou moçambicano e nasci em Moçambique. Vivo em terras distantes, mas sempre como moçambicano. Não prestem tanta atenção às minhas palavras, mas oiçam as batidas do meu coração”.

Ruy Guerra recordou ainda o seu contributo no cinema moçambicano dizendo que “achei que a minha experiência podia valer ao país, sentia uma vontade política de celebrar um país novo através do cinema. Não parti com um sentimento de derrota porque o cinema moçambicano tornou-se uma referência para toda a África”.

Depois do seu discurso, que fez muitos dos presentes emocionarem-se, os seus três filhos, a sua biógrafa, o seu amigo José Luís Cabaço e o artista Naguib fizeram questão de o cumprimentar em palco. O pintor Naguib aproveitou a ocasião para lhe oferecer um quadro da sua autoria.

Após a projecção do filme, a festa continuou no bar Kampfumo, na estação dos Caminhos de Ferro, onde se cantaram músicas de Chico Buarque com letra de Ruy Guerra.

Segunda-feira com o Dockanema

 Amanhã (segunda-feira) no Dockanema, destaque para três filmes com a presença dos realizadores.

Pelas 14 horas, na Faculdade de Letras e Ciências Sociais, será projectado o filme

Los Dioses de Verdad Tienen Huesos. O filme passa-se na Guiné Bissau, um dos países mais pobres do mundo, onde os realizadores David Alfaro Simon e Belén Santos Osorio seguem crianças com graves problemas de saúde, que têm de ser evacuadas para a Europa para sobreviver. O dia-a-dia de cinco pessoas revela as complicações da realização destas evacuações que pioram quando, um dia, o Presidente e o Chefe de Estado-Maior General são assassinados e o país fica paralisado. Os protagonistas dão a conhecer a sua luta na sociedade guineense por um futuro, com um sorriso, algo que a priori parece impossível.

A realizadora Belén Santos Osorio estará presente no evento. Sendo formada em Comunicação pela Universidade Complutense de Madrid, trabalhou durante dez anos como produtora na Agência de Notícias TV Efe, em paralelo com a sua carreira no cinema, até que decidiu concentrar-se exclusivamente na sua carreira de roteirista e realizadora.

Por seu lado, David Alfaro é formado em jornalismo pela Universidade Complutense de Madrid, e em realização e roteiro para Cinema e Televisão pelo Instituto del Cine de Madrid. Realizou vídeos musicais, é poeta, dramaturgo, analista de roteiro e professor de roteiro.

 

O chileno Rodrigo Gonçalves esteve em Moçambique nos anos 80, altura em que realizou vários filmes, que são um retrato do país na época.

A 6º edição do Dockanema faz uma retrospectiva da sua obra, mostrando nove trabalhos neste festival. Amanhã, pelas 16 horas passarão três filmes no Teatro Avenida: Nkomati, o direito de viver em paz (1985), Pintores Moçambicanos (1986) e Papa Samora (1987), com legendas em português. Rodrigo Gonçalves estará presente na projecção.

 

Aboio passará pelas 20 horas no Centro Cultural Brasil – Moçambique, onde estará a realizadora brasileira, Marília Rocha.

No interior do Brasil, nas extensões semi-áridas, há homens que ainda hoje conservam hábitos antigos, como o costume de tanger o gado por meio de um canto. As suas vozes ecoam lamentos improvisados e sem palavras, que se prolongam pelos campos do sertão.

A realizadora Marília Rocha vive e trabalha em Belo Horizonte. É mestre em Comunicação Social e uma das fundadoras do núcleo Teia. Os seus primeiros filmes, Aboio (2005) e Acácio (2008), foram exibidos em festivais e mostras de cinema em diversos países, como MoMA – Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (EUA), É Tudo Verdade (Brasil), Festival de Roterdão (Holanda), Bafici (Argentiva), Festival de Guadalajara (México), Doclisboa (Portugal), entre outros. Nesta edição do Dockanema, passam os seus três filmes documentários, A Falta que me Faz (2009), Acácio e Aboio.

 

Sem a presença dos realizadores, mas com igual destaque, pelas 18 horas, no teatro Avenida, destaque para Mundialito, de Sebastián Bednarik, um documentário sobre um campeonato de futebol jogado pelos campeões do mundo, numa sociedade de terceiro mundo que vive sob uma ditadura: o Uruguai. Este filme traz à luz do dia algumas questões paralelas ao jogo, que contrastam com o espírito de solidariedade que caracteriza este tipo de competição. Sebastián Bednarik questiona a atitude da comunidade internacional face ao campeonato, a reacção da sociedade do Uruguai, a experiência dos actores sociais, políticos e desportivos ao participarem neste evento, o significado do jogo para as forças armadas, e muito mais num filme onde as estrelas do Mundialito contrastam com a miséria de uma sociedade que vive todos os dias na penumbra.

Sebastián Bednarik nasceu em 1975, no Uruguai. Desde 1993, esteve envolvido no teatro. Em 2005, co-fundou com Andres Varela, a Coral Films. Em 2007, terminou o seu primeiro documentário La Matinée e começou a filmar o seu segundo, Cachila. Cachila teve a sua estreia em 2008 nos cinemas e está no catálogo Efecto Cine, que se apresenta como uma plataforma profissional de exposição itinerante, projecto desenvolvido pela Coral Films. Em 2009, começa a realização do documentário de longa-metragem Mundialito.

Diário de uma busca, de Flavia Castro, conta a história do jornalista brasileiro Celso Castro, que foi encontrado morto no apartamento de um ex-oficial nazi, em 1984. A realizadora, filha de Celso, leva o público num viagem de suspense onde a vida e morte do homem, que a polícia afirma ter-se matado, é reconstruída.

Flávia Castro é roteirista e realizadora, alternando trabalhos de ficção e documentário, no Brasil e em França. Em Paris, trabalhou com vários documentaristas, como assistente de direcção a produtora executiva, muitas vezes escrevendo. Atualmente está finalizando o roteiro de longa metragem de ficção A memória é um Músculo da Imaginação.

Diário de uma Busca é a sua primeira longa metragem. O filme passará às 20 horas no teatro Avenida.

Antropologia visual

Aproveitando a mostra de videos de Vittorio de Seta no âmbito da programação do Festival Dockanema, o curso de Antropologia da Faculdade de letras e Ciências Sociais cria um momento de reflexão sobre a vertente do filme etnográfico envolvendo docentes/pesquisadores do Departamento de Arqueologia e Antropologia com trabalhos desenvolvidos na área de Antropologia Visual.

A atividade envolve uma mesa redonda com estes profissionais e visualização de videos de cunho etnográficos. Após forum de debate será projetada uma sequência de videos curta-metragens dirigidos pelo autor.

O debate conta com Esmeralda Mariano – Pesquisadora DAA, autora de Ciclo da Vida (em montagem) e Miguel Prista – docente cadeira de Antropologia Visual.
O evento acontecerá amanhã pelas 9 horas, no campus principal da Universidade Eduardo Mondlane, no anfiteatro 1502.