Pedro Pimenta, o director do Dockanema vê anualmente entre 400 a 500 filmes por ano, para escolher menos de 80 para o festival, e um só para a abertura.

Este ano, o filme escolhido é a Nostalgia da Luz, Patricio Gúzman.

O documentário passa-se no Chile, mais precisamente no deserto de Atacama, onde dois elementos sobressaem: o céu e a terra.

O céu é tão límpido e transparente que serve de lupa para outros planetas procurados pelos astrónomos que ali se instalam, observando as estrelas. Em Atacama, está a esperança de outros mundos, outras vidas, outras culturas.
Na terra, está o passado. O deserto é de tal forma seco que conserva, intactos, os restos humanos das múmias antigas, dos intrépidos exploradores, dos mineiros e dos presos políticos da ditadura de Pinochet.

Escavando, mulheres procuram os seus parentes desaparecidos, os seus pais, maridos e filhos. É o fechar de um ciclo que procuram, uma conclusão a um sofrimento de longos anos. Também uma esperança de, ao enterrar os seus mortos, conseguir enfim fechar um quarto escuro a que não desejam regressar.

A Nostalgia da Luz é, por isso, um filme de esperança e de memória, de não esquecer o passado, mas sempre de olhos no céu, onde não há limites para o sonho.

Entre 1973 et 1979, Patricio Gúzman realizou o seu primeiro filme, A Batalha do Chile, uma trilogia sobre o governo de Salvador Allende e sua queda. Foi o início de um caminho de notoriedade. A revista americana Cineaste considerou-o «um dos dez melhores filmes políticos do mundo».
Após o golpe de Estado do Pinochet, Gúzman ficou encarcerado durante duas semanas no estádio nacional chileno, e ameaçado de morte.
Já em liberdade, instalou-se depois em Cuba, e mais tarde em Espanha e Franca, onde continua a sua carreira de realizador de documentários.
Entre 2006 e 2010, realizou a Nostalgia de la Luz e cinco curta-metragens sobre a astronomia e a memória histórica. Patricio Gúzman é também fundador e presidente do Festival Internacional do Documentario de Santiago do Chile.

Sobre o realizador chileno, diz Pedro Pimenta: “Os primeiros filmes do Patricio Gúzman foram mostrados em Moçambique logo após a independência, e ele é um dos raros realizadores cuja toda a obra cinematográfica foi projectada no nosso país. Tudo isso me remete à noção do documentário como memória de um povo, do fecho de um círculo, de onde estávamos quando começámos a vê-lo e a senti-lo, e onde estamos agora. Sobretudo do que sentíamos na altura e o que sentimos hoje”.

A Nostalgia da Luz é o filme de abertura da 6º edição do Dockanema, passando às 19.30 na sexta-feira, dia 9 de Setembro, no Centro Cultural da Universidade Eduardo Mondlane. Será de novo apresentado no Sábado, dia 10, pelas 20 horas no Teatro Avenida.