“Foi o Ruy Guerra que me trouxe para Moçambique. Eu havia escrito um livro sobre a guerra da independência na Guiné Bissau, e o Ruy convidou-me a vir para cá, com o objectivo de recolher histórias da guerra em Moçambique. Cheguei em 1978 e logo fui para Mueda, onde já estava Camilo de Sousa. A minha recolha foi usada para vários fins, nomeadamente como uma das bases do filme Tempo dos Leopardos. Cheguei a Moçambique, pela mão do Ruy, como jornalista e escritor. E fui ficando como cineasta”, recorda Licínio Azevedo.

“O Ruy tem uma característica fundamental: é insatisfeito. Mas não pessimista. Pelo contrário, está sempre em busca de novas ideias, de novas imagens. Tem uma capacidade de renovação muito grande. Nós conhecemo-nos em 1981 quando eu era ministro da Informação. Já sabia muito sobre ele na altura, do trabalho que ele tinha feito em Paris e no Brasil. E a minha opinião foi confirmada quando o conheci, sobretudo pela sua humildade. O Ruy veio para Moçambique não para dirigir o cinema, mas para fazer parte do cinema moçambicano”, conta José Luís Cabaço.

As histórias de vida que envolvem Ruy Guerra em Moçambique são numerosas. Agora de volta ao país que o viu nascer, não há como não recordar a importância que teve no cinema nacional. E o Dockanema presta-lhe a devida homenagem.

Ruy Guerra nasceu na actual cidade de Maputo em 1931. Na sua juventude, em Moçambique, foi activista contra o colonialismo e o racismo, o que lhe valeu problemas com as autoridades. Os seus pais resolveram enviá-lo para Portugal onde foi preso, por motivos políticos, à sua chegada.

Seguiu depois para Paris. Estudou no IDHEC (Institute des Hautes Ètudes Cinématographiques) tendo-se formado em 1954. Participou nos anos efervescentes da Nouvelle Vague do cinema francês e, em 1958, seguiu para o Brasil onde se fixou.

Com a independência do seu país natal, Ruy Guerra ofereceu-se para colaborar na criação de uma cinematografia moçambicana, realizando obra importante na formação de jovens cineastas e na criação de uma rede popular de distribuição e exibição.

Em apoio à produção cinematográfica nacional, criou a Kanemo. Pela sua mão, importantes figuras do cinema internacional participaram, no quadro do Instituo Nacional de Cinema, na formação de operadores de câmara, técnicos de som, roteiristas, produtores e realizadores do nosso país.

Representando a cinematografia brasileira, Ruy Guerra ganhou por duas vezes o Urso de Prata do Festival de Berlim. O primeiro em 1964, com Os Fuzis, e o segundo em 1977, com A Queda.

Tem vários outros prémios e reconhecimentos internacionais. Filmou em França, no Brasil, em Espanha, em Cuba, no México, em Portugal e em Moçambique. No cinema, antes de ser um realizador consagrado, foi câmara, fotógrafo, actor numa dezena de filmes, roteirista e documentarista.

Consagrado como um dos fundadores do Novo Cinema Brasileiro, leccionou em várias Universidades e Escolas de Cinema. Escreveu e dirigiu obras teatrais, foi o autor de letras de canções que obtiveram o maior sucesso e produziu espectáculos com os maiores nomes da música popular brasileira. É poeta, escritor e jornalista, tendo mantido durante anos uma crónica semanal no jornal carioca O Globo.

A presença de Ruy Guerra num festival de cinema documental é de grande importância, não apenas pelo trabalho que ele desenvolveu, em especial em Moçambique, na produção de documentários, mas também porque toda a sua produção artística está marcada por uma íntima relação entre realidade e ficção.

“A minha tendência”, disse o autor numa entrevista em 2000 a Cadernos de Cinema, “ é pegar a realidade como um aspecto ficcional”. Ele vê “a ficção como um documentário ou o documentário como ficção”, porque, “a partir do nosso mundo simbólico a realidade já é ficcionada. A nossa representaçâo do mundo, a maneira como a gente o recebe através dos sentidos, já é uma ficção”.

Os seus dois filmes mais premiados, Os Fuzis e A Queda, são provavelmente os momentos mais conseguidos desta sua visão do cinema.

É este o filho da terra que o Dockanema se propõe celebrar no decurso do Festival do corrente ano. Pretende-se render homenagem ao Artista de projecção mundial e ao Homem que não esqueceu o próprio país nos anos da reconstrução nacional. Ao mesmo tempo, o Dockanema quer trazer às novas gerações um pouco da história da génese do nosso cinema e do contributo dado pelos profissionais brasileiros que então se puseram ao serviço do nosso país, preparando os jovens de então.

Trazer Ruy Guerra e alguns exemplos da sua obra, ouvi-lo, retomar o diálogo, colocar a sua experiência à disposição das novas gerações do nosso cinema, são alguns dos objectivos complementares desta iniciativa do Festival Dockanema.

Com a presença deste grande autor do cinema brasileiro e internacional, moçambicano de naturalidade, a organização está certa de prestar uma valiosa contribuição à cultura em Moçambique e ao aprofundamento, também no plano cultural, das relações entre o nosso país e o Brasil.

Assim, no dia 10 de Setembro, será apresentado o filme Os Fuzis, pelas 19.30, no Centro Cultural da Universidade Eduardo Mondlane, seguido de um cocktail nos restaurante/ bar Kampfumo, na estação dos Caminhos de Ferro, onde se cantarão músicas de Chico Buarque, com letra de Ruy Guerra.

 No dia 15, pelas 18 horas, realizar-se-á uma palestra dirigida por Ruy Guerra, no Centro Cultural Brasil – Moçambique, onde o cineasta aproveitará para falar sobre a sua experiência e a sua história, nomeadamente em Moçambique.

Po fim, no dia 17, pelas 18 horas, igualmente no Centro Cultural Brasil –Moçambique, , será apresentado A Queda.