“De Seta foi um antropólogo que falou com a voz de um poeta. De onde veio essa voz? Quarenta anos depois eu me fiz essa pergunta e percebi que talvez a resposta esteja em seus documentários. Finalmente, quando os assisti, fiquei maravilhado. Desde as primeiras imagens, senti mal-estar e desorientação, como se eu não estivesse preparado para ver o que estava vendo. Fui tomado por uma intensa emoção, como se tivesse ultrapassado a tela e encontrado um mundo que eu não sabia que existia, mas que reconhecia aos poucos.
Aquele mundo que estava vendo era minha própria cultura ancestral que estava perto do fim, a um passo de virar mito. […] E de repente eu não estava mais restrito à tela, começava a ver pelos olhos do diretor, como se, no ato de tentar reaver nossas raízes comuns, eu passasse a ver o mundo como De Seta viu. A Sicília que vi na tela era a Sicília de minha família, de meus avós, talvez a última geração a conhecer aquela mesma terra que eu estava vendo diante dos meus olhos. Um lugar onde a luz do dia era algo precioso e as noites, completamente escuras e misteriosas.
Um lugar que se manteve inalterado ao longo dos séculos, em que o estilo de vida era sempre o mesmo, onde os desastres naturais eram parte normal da vida. Morte e destruição eram sempre iminentes. Um lugar onde a religião teve importância primordial, em que os sofrimentos da vida se transformam em calvário. […] As pessoas esperavam a redenção por meio do trabalho manual nas entranhas da terra, no mar, nas colinas, puxando as redes, colhendo o milho, removendo o enxofre. Pessoas que oravam até suas mãos ficarem fatigadas. […] Não foi só o mundo dos meus antepassados que tinha de repente surgido diante de meus olhos, mas também um cinema que já não existia. Um filme que tinha o poder de evocação da religião.
O exame durou menos de uma hora, mas o tempo passou devagar, como se eu tivesse vivido cada único quadro. Era o cinema no seu melhor, um filme capaz de mudar. Eu estava experimentando algo que nunca antes havia conseguido entender. As emoções vividas naquele momento eram desconhecidas para mim. Como se eu tivesse feito uma viagem a um paraíso perdido.”

Nascido em Palermo, em 1923, estudou arquitectura em Roma antes de decidir tornar-se realizador. De Seta filmou até 2006. Sua reputação, no entanto, é mais ligada a dez pequenos documentários realizados na Sicília e na Sardenha entre 1954 e 1959. À excepção de Páscoa na Sicília e Os Esquecidos, que enfocam festas populares, o tema dos demais é o trabalho na pesca, no pastoreio, nas minas, nas lavouras de trigo, na fabricação de pães. Trabalho e quotidiano familiar interligados em narrativas cheias de senso de atmosfera, ritmo e poesia.  O conjunto dos filmes foi lançado em DVD com o título de O Mundo Perdido.Realizou em 1961 o seu primeiro longa-metragem, Banditi a Orgosolo.

Lu tempu de li pisci spata
Vittorio de Seta, 1954, 11’

Nesta bela temporada o peixe espada vem até as águas quentes que separam a Sicilia da Calábria para botar seus ovos. Aqui, o homem está à espera dele para matá-lo. É uma pesca muito antiga, cujas origens se perderam no tempo. Os homens cantam durante a longa espera. As mulheres cantam durante a labuta diária.

Isole di fuoco
Vittorio de Seta, 1954, 11

Ao norte da Sicília surgem do mar a ilha de Stromboli e as Ilhas Eólias. Aqui as chamas saem, novamente, das entranhas da Terra, e ameaçam a vida dos homens. É por essa razão que os habitantes pouco a pouco abandonaram a ilha e emigraram para outros continentes. Este documentário foi filmado durante as erupções vulcânicas de dezembro de 1954.

Parabola d’oro
Vittorio de Seta, 1955, 12’

Todo ano, durante o verão sufocante da Sicília, a parábola cíclica da colheita se repete. Em algumas partes da ilha, o grão é colhido e ainda debulhado com mulas, com o vento e com o suor dos rostos

Pasqua in Sicilia
Vittorio de Seta, 1956, 9’

O drama da morte e da ressurreição de Jesus é celebrado em pequenas vilas na Sicília, com representações que refletem comoção e imediata sensação de participação.

Contadini del mare
Vittorio de Seta, 1956, 10’

Ao largo da costa da Sicília, os pescadores esperam pelo atum, que, por milénios, vem seguindo a mesma rota.

Pescherecci
Vittorio de Seta, 1958, 11’

Há milhares de homens nos barcos de pesca. Dia e noite, eles cobrem o vasto mar entre a Sicília e a África. Eles buscam refúgio na ilha de Lampedusa durante tempestades.

Pastori di Orgosolo
Vittorio de Seta, 1958, 10’

Sopramonte Orgosolo, na Sardenha, refúgio de fugitivos e bandidos. Neste deserto pedregoso, hoje, poucos pastores resistem à fome e ao frio para manter seus rebanhos.

I dimenticati
Vittorio de Seta, 1959, 20’

Estamos na Calábria, precisamente em Alessandra del Carreto, uma pequena aldeia esquecida nas montanhas, dividida pela estrada asfaltada de 18km…Isolados do resto do mundo, cerca de 1600 habitantes esperam por agua, rodas, esperança, mas recebem vitalidade participando num ritual da primavera.