Dentro de uma semana começa a 6º edição do Dockanema que contará com 80 filmes, dos quais cerca de 50 por cento são de produção africana. Segundo Pedro Pimenta, director do festival, “o nosso objectivo é sempre o mesmo: mostrar o que de melhor se faz em Moçambique e no mundo, novos olhares, formas de trabalhar, e potenciar um maior contacto entre profissionais do ramo, nacionais e estrangeiros”. Embora lamente a dificuldade na mobilização de recursos financeiros e humanos para se realizar um evento como este, Pedro Pimenta mostra-se feliz com o resultado final, destacando oito filmes internacionais e sete nacionais.

O primeiro é, naturalmente, o de abertura do festival: A Nostalgia da Luz, de Patricio Gúzman. “Os primeiros filmes do Patricio Gúzman foram mostrados em Moçambique logo após a independência, e ele é um dos raros realizadores cuja toda a obra cinematográfica foi mostrada no nosso país. Tudo isso me remete à noção do documentário como memória de um povo, do fecho de um círculo, de onde estávamos quando começámos a vê-lo e a senti-lo, e onde estamos agora. Sobretudo do que sentíamos na altura e o que sentimos hoje”.

A Nostalgia da Luz passa-se, no Chile, mais precisamente no deserto de Atacama, onde a transparência do céu é de tal ordem que permite a astrónomos do mundo inteiro observar as estrelas e procurar extraterrestres. Paralelamente, o deserto de Atacama também é um lugar onde a secura do solo conserva intactos os restos humanos: das múmias, dos exploradores, dos mineiros e as ossadas dos presos políticos da ditadura. Ao lado dos astrónomos, mulheres mexem nas pedras, procurando os seus parentes desaparecidos.

SAL DA TERRA

 Na secção Sal da Terra, o Dockanema destaca os filmes de cineastas moçambicanos ou que estão relacionados com Moçambique.

 Dois filmes retratam a presença chinesa no nosso país, mostrando uma onda de imigração com consequências para quem cá está e quem chega. A realizadora moçambicana Yara Costa apresenta Porquê aqui? Histórias de Chineses em África, com testemunhos chineses numa pequena aldeia no Lesoto, numa ilha isolada em Moçambique e na movimentada capital do Gana, onde centenas de imigrantes chineses em busca de uma vida melhor, chegam com a esperança de prosperar, mas que rapidamente se encontram diante de todos os tipos de obstáculos – até mesmo a morte. Três histórias de vida mostram o o maior fenómeno de imigração que o continente africano teve na última década.

Por seu lado, a austríaca Ella Raidel vem com Subverses – China in Mozambique, que retrata a comunidade chinesa especificamente em Moçambique. Os protagonistas contam como África é vista como “o último mercado do mundo” e a sua cruzada como construtores de alguns dos maiores projectos urbanos do nosso país. Na primeira pessoa, mostram o outro lado destes investimentos avultados.

A belga Lotte Stoops revive o presente e o passado do Grande Hotel, na Beira, um edifício que é mais uma cidade dentro da cidade. Mais do que um simples documentário sobre a história deste hotel, o filme retrata a megalomania colonial, a vaidade

revolucionária e o sentimento de estar em casa quando se partilha o mesmo espaço com mais de 2500 pessoas.

Vozes de Moçambique é o filme apresentado por Susana Guardiola e Françoise Polo dedicado à importância das mulheres no desenvolvimento diário da sociedade. Em África, as mulheres calam e trabalham em silêncio, sem voz. Neste filme, cinco vozes representam o ciclo de vida das mulheres, e a sombra de uma lenda reencarnada em todas elas: Josina Machel, a primeira heroína moçambicana que lutou pela independência e pelos direitos das mulheres.

Por fim destaque para Tambores do Mundo do realizador brasileiro Sérgio Raposo, que retrata as histórias e tradições à volta dos tambores, em seis países do mundo, Brasil, China, Catar, Portugal, Zâmbia e Moçambique. Embora o instrumento seja o mesmo, a música, religião, cultura, tradição e modernidade são retratadas nas histórias de vida de cada um dos personagens acompanhados pelas lentes deste filme. O final do filme guarda ainda uma surpresa especial, criando um diálogo cultural que aproxima os continentes.

FILMES INTERNACIONAIS DE DESTAQUE

 Para além do filme de abertura, destaque para Mundialito, de Sebastián Bednarik (Uruguai), um documentário sobre um campeonato de futebol jogado pelos campeões do mundo, numa sociedade de terceiro mundo que vive sob uma ditadura: o Uruguai. Este filme traz à luz do dia algumas questões paralelas ao jogo, que contrastam com o espírito de solidariedade que caracteriza este tipo de competição. Sebastián Bednarik questiona a atitude da comunidade internacional face ao campeonato, a reacção da sociedade do Uruguai, a experiência dos actores sociais, políticos e desportivos ao participarem neste evento, o significado do jogo para as forças armadas, e muito mais num filme onde as estrelas do Mundialito contrastam com a miséria de uma sociedade que vive todos os dias na penumbra.

Do Brasil vem A Falta que me faz da realizadora Marília Rocha sobre um grupo de meninas que vive o fim da juventude e, através de conversas, obrigações e prazeres quotidianos, encontra uma maneira particular de contornar a solidão e enfrentar as incertezas de um futuro próximo. Durante um inverno, rodeadas pela Serra do Espinhaço, um grupo de meninas passa pela nostlagia de quem se despede da juventude, e abre os braços à idade adulta, num romantismo que deixa marcas nos seus corpos e na paisagem que as rodeia.

Diário de uma busca, de Flavia Castro, conta a história do jornalista brasileiro Celso Castro, que foi encontrado morto no apartamento de um ex-oficial nazi, em 1984. A realizadora, filha de Celso, leva o público num viagem de suspense onde a vida e morte do homem, que a polícia afirma ter-se matado, é reconstruída.

Cosima Spender apresenta a Dolce Vita Africana, um retrato documental do fotógrafo africano Malick Sidibé, e uma viagem através da história do Mali, inspirada pelas suas imagens icónicas. Num país que hoje é dos mais pobres do mundo, as imagens de Malick testemunham o espírito de liberdade da juventude do Mali desde o final dos anos 50 até ao início dos anos 70, uma época marcada pelo fim da colonização e o início de décadas de uma austera ditadura militar.

Destaque também para War Child, de Christian Karim Chrobog, sobre as crianças-soldado no Sudão. “Saio de casa com sete anos de idade / um ano depois estou a carregar uma Ak-47” canta o artista de hip hop, Emmanuel Jal, uma ex-criança-soldado na brutal guerra civil do seu país. Jal, que foi “forçado a pecar”, usa hoje a sua experiência para travar uma batalha com dois objectivos: trazer a paz ao Sudão e construir escolas em África. Desta vez, a sua arma é um microfone.

Dos nossos países vizinhos, Zimbabwe e África do Sul, vem o filme Robert Mugabe…what happened?, do realizador Simon Bright, sobre a ascensão e queda Shakespeariana do homem que dirigiu um país africano muito bem sucedido, e que depois o arruinou. O filme explora um percurso de 30 anos, através de entrevistas com alguns dos camaradas mais próximos de Robert Mugabe e reúne uma colecção única de arquivo da África Austral para evocar de forma vigorosa cada uma das décadas do seu reinado.

Surfing Soweto da realizadora sul-africana Sara Blecher fala sobre o amadurecimento de um grupo de adolescentes que “surfa” nos comboios em movimento no Soweto. Blecher segue três amigos no Soweto, 30 anos depois dos levantamentos de jovens, no seu famoso “township” e 20 anos após a caminhada de Nelson Mandela para a liberdade.

Por fim, Os Perdidos (Les Égarés) de Christine Bouteiller é um filme sobre os sobreviventes de 30 anos de guerra no Cambodja. Recorde-se que, em 1992, 380 mil refugiados foram repatriados dos campos da fronteira tailandesa e instalados numa aldeia construída pela Nações Unidas. “Os que ficaram” viram chegar com desconfianca estas famílias, apos 13 anos de exílio, como uma ameaça para suas terras e equilíbrio. Chamaram-lhes “os perdidos”, nome que carregam até hoje.

 1 de Setembro 2011

Marta Curto
Media Relations Dockanema

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