“Nós cavamos grandes abrigos não só para nos protegemos dos bombardeamentos mas também para viver neles. Os nossos abrigos não são buracos onde nos escondemos. Foi-nos dada a ordem de transformar abrigos em postos de combate. Os nossos abrigos são os nossos postos de combate.”

O 17º Paralelo, Joris Ivens, França, 1968, 11’

Joris Ivens nasce na Holanda em 1898, ano em que Emile Zola publica “J’Accuse” e morre em Paris em1989, ano do massacre de Tiannanmen e da queda do Muro de Berlim. Foi um cineasta do século XX que  filmou o quotidiano e as utopias dos homens. O “Holandês voador” começou a filmar em 1912 e realizou mais de 80 filmes por todo o mundo. A sua filmografia é um exemplo de conexão de culturas, países e géneros cinematográficos. Joris Ivens começou a trabalhar com simples câmaras de mão, filmando a preto e branco, sem som. A câmara que usou para realizar “De Brug / The Bridge” (1928) foi uma Kinamo, tendo Ivens feito pesquisa com Emanuel Goldberg, o inventor desta câmara manual, usada por cineastas como Dziga Vertov, Jacques Cousteau e Jean Vigo. O dispositivo técnico era composto com um mecanismo de mola que só podia conter um rolo de filme de 7,5 metros, permitindo a feitura de filmes curtos. A partir desses projectos muito simples, com pouco dinheiro, os seus filmes começaram a crescer em complexidade, realizando filmes a cores, com som e com mais dinheiro. Joris Ivens foi um dos pioneiros do filme documentário e era apaixonado por cinema. A sua obra é acompanhada por um sentido de insubmissão e justiça e abrange uma grande parte da história do cinema. A Fundação Joris Ivens está sediada em Njimegen, onde se concentra grande parte do arquivo fílmico do realizador e nos últimos anos tem-se dedicado à pesquisa e divulgação da obra do cineasta.  

ÁGUA – MOVIMENTO

 Études des mouvements, Joris Ivens, Holanda, 1927, 4’

Imagens do trânsito em Paris. Neste ensaio já é notória a influência dos filmes de vanguarda russos, que pode ser observada nitidamente nas composições diagonais dos planos.

 De brug, Joris Ivens, Holanda, 1928, 11’

O elevador vertical da ponte de Roterdão é o principal objecto de estudo deste filme. Uma obra de engenharia que parece ser uma estrutura eminentemente estática foi o pretexto para Joris Ivens fazer um filme muito dinâmico. “Para mim, a ponte é constituída por um laboratório de movimentos, tons, formas, contrastes, ritmos e as relações entre todos esses fenómenos”. O filme foi prontamente reconhecido pela crítica internacional como uma obra-prima, tornando Joris Ivens no mais conhecido cineasta de vanguarda holandês.

 Regen, Joris Ivens & M.H.K. Franken, Holanda, 1929, 15’

Regen é um filme poema (Cine Poème) sobre a ascensão e queda da chuva em Amesterdão, cidade filmada por Joris Ivens como muitas outras capitais o foram por cineastas de vanguarda na década de 1920 (Moscovo, Berlim, Paris, Nova Iorque). O filme é uma composição impressionista e segue um rumo musical. O realizador, que filmou em diversos locais da cidade, demorou mais de dois anos para cinematografar cenas de chuva suficientes para conseguir compor o filme.

 La Seine a rencontré Paris, Joris Ivens, França, 1957, 32’

O primeiro filme realizado por Joris Ivens, após o seu regresso da Europa de Leste, é um poema em movimento sobre a vida parisiense, nas margens do rio Sena. O poema escrito por Jacques Prévert eleva o filme a uma outra dimensão, e a música, tema recorrente de uma canção infantil, provoca um embate melancólico das imagens. La Seine a rencontré Paris recebeu a Palma de Ouro do Festival de Cinema de Cannes, para a melhor curta-metragem e o Primeiro Prémio no Festival de Cinema de São Francisco e o Primeiro Prémio do Festival de Cinema de Oberhausen.

 Rotterdam Europoort, Joris Ivens, Holanda e França, 1966, 20 ‘

Filme sobre um dos maiores portos marítimos do mundo, com um formato híbrido entre a ficção e o documentário. Temas bem conhecidos da filmografia de Joris Ivens são revisitados, como “The Flying Dutchman”, na parte ficcional do filme que retorna ao moderno porto de Roterdão, que recuperou extraordinariamente após os bombardeamentos devastadores da segunda guerra mundial.

Cinemafia, Jean Rouch, Holanda, 1980, 33’

Encontro na praia com Joris Ivens e Henri Storck. Esta entrevista, realizada por Jean Rouch por detrás das câmaras, teve lugar no dia 31 de maio de 1980 em Katwijk, uma aldeia ao longo do Mar do Norte, onde Joris Ivens filmou o seu único filme de ficção “The Breakers” (1929) em co-realização com Mannus Franken.

TERRA – ECONOMIA POLÍTICA 

Komsomol, Joris Ivens, Rússia, 1932, 50’

Documentário sobre a construção de altos-fornos por parte da organização das juventudes operárias comunistas Komsomol, edificados no primeiro plano quinquenal arquitectados pela União Soviética. O filme é ambientado em Magnitogorsk nos Urais, uma cidade industrial com cerca de 200.000 pessoas, construída em poucos anos e na bacia Kubas na Sibéria. O filme é uma homenagem às conquistas dos voluntários, os Komsomol, mas não mostra o lado negro da história: milhares de presos condenados a trabalhos forçados em condições terríveis. Joris Ivens, influenciado pelo cineasta russo Vsevolod Pudovkin, conta a história em moldes documentais escolhendo um protagonista que não é actor mas representa as cenas. Depois da experiência narrativa de Komsomol, esta forma de “história personalizada” docudrama, ressurge em diversos filmes de Joris Ivens.

Nieuwe Gronden, Joris Ivens, Holanda, 1933, 29’

O episódio “Zuiderzee Works” do conjunto de filmes “We Are Building” foi elaborado para um filme mais longo intitulado “Zuiderzee” por Joris Ivens em 1930. Este filme é inscrito com uma  mensagem política e a montagem tornou-se mais compacta e incisiva com a música singular de Hanns Eisler. Após os segmentos sobre a conquista da terra ao mar e o fechamento do dique, o filme continua com imagens da crise económica e a pobreza extrema entre os trabalhadores. O encerramento do dique é uma das sequências de edição mais fortes dos filmes de Joris Ivens.

 Misère au Borinage, Joris Ivens & Henri Storck, Bélgica, 1934, 34’

Filme realizado com Henri Storck sobre as condições de vida dos trabalhadores nas minas de carvão em Borinage, na Bélgica. Henri Storck, uma das figuras principais do filme de vanguarda na Bélgica, pediu em 1933 a Joris Ivens para ajudá-lo a fazer um filme sobre as consequências sociais da greve de mineiros no ano anterior. Ao chegarem à região Storck e Ivens abandonaram as suas preocupações estéticas. Como diz Henri Storck: “Parámos de pensar sobre cinema passando antes a sermos dominados pela necessidade irreprimível de produzir as imagens mais gritantes, nuas e sinceras possíveis que se encravassem à crueldade dos factos que a realidade tinha lançado sobre nós.” Ivens utilizou o método de reinterpretação no filme para incorporar a greve dos mineiros de 1932.

FOGO-GUERRA

Spain Earth, Joris Ivens, E.U.A., 1937, 52’

A produtora “Contemporary Historians” foi criada para angariar dinheiro para a filmagem dum documentário sobre a guerra civil espanhola. A equipa de rodagem contava inicialmente com John Fernhout (Ferno) e com o escritor John Dos Passos, tendo este último sido substituído por Ernest Hemingway. Juntamente com Joris Ivens foram a Fuenteduena, perto de Madrid, juntando-se à frente do exército republicano. Tornou-se num dos grandes filmes sobre a Guerra Civil Espanhola e um dos filmes mais importantes da carreira de Ivens. Como em muitos outros filmes de Ivens encontra-se um equilíbrio entre a vida quotidiana das pessoas e a sua luta para sobreviver. A fotografia poderosa, maioritariamente de John Ferno, combinada com a vigorosa edição por Helen van Dongen e os comentários de Ernest Hemingway tornam o filme numa obra-prima do cinema documentário. A primeira versão contou com a colaboração do realizador Orson Welles, mas sua voz acabou por ser considerada “demasiado bela” para ser combinada com o filme.

 The 400 millions, Joris Ivens, E.U.A., 1939, 53’

Documentário sobre a resistência da China contra a invasão e ocupação japonesa da Manchúria. O Kuomintang nacionalista, liderado por Chiang Kai-Shek e o Partido Comunista colaboraram e uniram-se contra o inimigo comum. O filme começa com o bombardeio japonês de Hankow e mostra todos os aspectos da guerra: as batalhas de campo, os refugiados, os mortos e os feridos, o medo e o sofrimento humano. O filme também coloca a resistência no contexto da cultura milenar da China. Com imagens de Sun Yat-sen, Chiang Kai-Shek, sua esposa Soong Mei – Ling e o futuro primeiro-ministro Chu En – Lai. Joris Ivens trabalha de novo com o operador de câmara John Fernhout (Ferno) e o fotógrafo Robert Capa.

VENTO – FILMAR O IMPOSSÍVEL

Pour le Mistral, Joris Ivens, França, 1965, 30’

Um dos filmes mais poéticos de Joris Ivens na sua primeira tentativa de filmar o vento. O filme através de uma fotografia impossível, uma montagem vigorosa e um comentário poético intenta que o vento se torne visível e tangível. A imagem que começa a preto e branco, transforma-se em cor e termina em “cinemascope” para ilustrar a força do vento Mistral que sopra no sul da França. O cenário inicial era muito mais complexo e ambicioso e consistia num desejo maior que impregna Ivens ao longo da sua vida de “filmar o impossível: o vento”. Como a maioria das pessoas era muito céptica quanto à ideia foi difícil encontrar um produtor para financiar um filme em que a personagem principal é invisível. Finalmente Claude Nedjar disponibilizou-se a produzir o filme, que apesar de muitos problemas financeiros, foi concluído em 1965. Apresentado no Festival de Veneza em 1966 ganhou o Leão de Ouro.

 Une histoire de vent, Joris Ivens & Marceline Loridan, França, 1988, 77’

A última obra de Joris Ivens, feita em parceria com Marceline Loridan, é uma visão da sua própria vida e sobre as mudanças do mundo. Após “Pour le Mistral” este filme é a segunda tentativa de filmar o invisível: o vento. Na China, tentam capturar o vento como um fenómeno natural e como metáfora para as constantes mudanças culturais e sociais. O filme estreou em 1988, no Festival de Cinema de Veneza, tendo Joris Ivens recebido o Leão de Ouro pela sua obra de cineasta. 

O 17º PARALELO – A GUERRA POPULAR

 Le 17ème  Parallèle – La Guerre du Peuple, Joris Ivens, França, 1968, 113’

Documentário extenso sobre a vida quotidiana em Vinh Linh e outras aldeias perto do paralelo 17, linha de demarcação entre o Norte e o Sul do Vietname. Esta área foi fortemente bombardeada durante a guerra do Vietname, obrigando os moradores a viver em parte subterrânea. O filme mostra a engenhosidade ea determinação do povo norte-vietnamitas para defender seu país e sua própria terra. As imagens chocantes, mas “limpas”, o ritmo de edição (para ilustrar o ritmo lento da vida numa comunidade agrícola) e o som sincronizado dos bombardeamentos a ocorrer, conferem a este filme uma relevância cinematográfica.